As trajetórias em engenharia e antropologia de Marcelo Kariri Menezes e Idjahure Terena antecedem a entrada dos dois primeiros representantes de povos originários no curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco. Os dois tomaram posse como diplomatas no Palácio Itamaraty, em Brasília, e participarão da turma que começa em 2026 e termina em 2028.
Marcelo pertence ao povo Kariri e Idjahure, ao povo Terena. Eles foram aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), que selecionou uma turma de aproximadamente 60 alunos para a formação ligada ao Ministério das Relações Exteriores.
Formação acadêmica dos novos diplomatas
Natural de Campina Grande, na Paraíba, Marcelo Kariri Menezes é graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e tem MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Entre 2021 e 2025, trabalhou como engenheiro de suporte a produtos. Ele também é autor de um livro infanto-juvenil.
Durante a cerimônia, Marcelo relatou que havia, no ambiente onde sua família vivia, uma tradição segundo a qual pessoas como ele enlouqueceriam caso estudassem e deveriam permanecer apenas em trabalhos braçais. Para o novo diplomata, a mãe identificou na educação uma possibilidade de mudança.
Idjahure Achkar Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Ele também tem mestrado em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Idjahure afirmou que ingressar no Itamaraty significa reconhecer a história de exclusão e tutela vivida pelos povos indígenas e trabalhar por um futuro em que a diversidade étnica integre o Estado. Ele é filho do artista Macsuara Kadiwéu, identificado na divulgação como o primeiro ator indígena do cinema brasileiro.
Composição da turma
Além dos dois indígenas, o grupo selecionado para o Instituto Rio Branco reúne 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência e uma pessoa quilombola. A turma também tem 45% de mulheres, o maior percentual de participação feminina registrado na história do curso, segundo as informações divulgadas.
O concurso contou com ações afirmativas relacionadas a uma política estabelecida pelo Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, e a reivindicações feitas ao longo dos anos por movimentos de defesa dos direitos humanos. Entre as medidas citadas está a ampliação do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que passou a apoiar, além de pessoas negras, mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.
Declarações na cerimônia
A ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, disse que o corpo diplomático deve refletir a diversidade da população brasileira. Ao comentar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas na instituição, ela classificou o momento como um ato de resistência e afirmou que esses grupos devem participar da definição da posição do Brasil no mundo.
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, declarou que a posse representa a materialização do conceito de “Aldear o Estado”, associado à inserção de lideranças indígenas em espaços técnicos capazes de influenciar decisões dentro e fora do país. Para ele, a cerimônia tem significado para o conjunto da nação e do Estado brasileiro.
Convidado de honra, o escritor indígena Ailton Krenak também participou do evento. Ele destacou a presença de famílias e crianças indígenas na solenidade e desejou que os novos diplomatas, mesmo diante das dificuldades, conseguissem construir caminhos com sentido.
A divulgação também informa que o Brasil tem 1,2 milhão de indígenas, distribuídos em 391 etnias que falam 295 línguas, além de 114 grupos isolados ou de contato recente. Os dados são atribuídos ao levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022.
Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.
Foto distribuída pela Agência Brasil Direitos Humanos








