As eleições de 2026 devem levar ao centro do debate temas que exigem decisões de médio e longo prazo, além de definição de prioridades no orçamento público. Educação, segurança pública, saúde mental, agronegócio e meio ambiente estão entre as áreas apontadas por especialistas como estratégicas para os próximos governos e para o trabalho do Legislativo.
As avaliações foram apresentadas em entrevistas do programa Painel Eletrônico, da Rádio Câmara, em uma série especial sobre as eleições. Os brasileiros irão às urnas em 4 de outubro de 2026 para escolher seus representantes.
As discussões abordam desde a continuidade de políticas públicas até mudanças na legislação, integração entre órgãos públicos, financiamento de programas e cumprimento de metas nacionais e internacionais. Entre os pontos analisados estão alfabetização, combate ao crime organizado, atendimento em saúde mental, crédito rural, seguro agrícola, transição energética e fiscalização ambiental.
Educação deve exigir planejamento de longo prazo
Na área da educação, a diretora de relações governamentais do Todos pela Educação, Talita Nascimento, destacou que alfabetização, valorização dos profissionais e aprendizagem estão entre as principais preocupações da população.
Segundo pesquisa do Instituto Ideia encomendada por entidades da sociedade civil, 71% dos brasileiros consideram as ações do governo na educação ao decidir o voto. O levantamento também indica que 83% defendem que a área esteja entre as três prioridades dos próximos governadores.
Para Talita, o tema não está restrito a especialistas ou organizações do setor. A educação também é percebida como prioridade por famílias que têm filhos na escola pública e dependem diretamente dos serviços oferecidos pelo Estado.
Outro desafio será a execução das metas e estratégias do Novo Plano Nacional de Educação, aprovado pelo Congresso e sancionado em 2026, conforme informado pela Câmara. A avaliação apresentada é que os resultados das políticas educacionais dependem de continuidade administrativa e de medidas que produzam efeitos ao longo dos próximos anos.
Segurança pública depende de integração
O combate à criminalidade foi associado à necessidade de maior coordenação entre governos federal e estaduais. O consultor legislativo da Câmara dos Deputados Lucas de Oliveira Jaques, ex-policial federal, apontou como prioridades o enfrentamento das organizações criminosas e o controle de fronteiras e portos.
A integração entre as forças de segurança já é prevista pela Lei do Sistema Único de Segurança Pública. Na avaliação do consultor, esse mecanismo poderia ser reforçado por mudanças discutidas na Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública, em análise no Senado, e pela eventual criação de um Ministério da Segurança Pública.
Jaques também ressaltou que a cooperação entre os órgãos depende do combate à corrupção de agentes públicos. Para ele, falhas de confiança e de troca de informações podem comprometer operações conjuntas.
O aumento de penas para crimes violentos pode responder a uma demanda da sociedade, mas não seria suficiente, isoladamente, para reduzir a criminalidade. O consultor lembrou ainda que as responsabilidades são divididas: estados concentram atribuições como ampliação de vagas no sistema prisional e aumento do efetivo policial, enquanto a União também participa da formulação de políticas e do financiamento.
Saúde mental ainda tem espaço limitado nas campanhas
Apesar de afetar diferentes áreas da vida social, a saúde mental ainda aparece de maneira limitada no debate eleitoral, segundo Bruno Ziller, gerente-executivo do Instituto Cactus.
A organização defende que o tema seja tratado em conjunto com educação, segurança pública, meio ambiente, emprego e moradia. A avaliação é que a saúde mental já começou a integrar o vocabulário político, mas muitas vezes aparece em propostas genéricas, sem detalhamento suficiente sobre políticas, serviços e formas de atendimento.
O Instituto Cactus lançou guias para eleitores e candidatos com informações sobre a política pública de saúde mental, os principais marcos legais e a estrutura da Rede de Atenção Psicossocial. A proposta é ampliar a compreensão sobre as responsabilidades do poder público e as medidas que podem ser discutidas durante a campanha.
Crédito e seguro rural são desafios do agronegócio
O agronegócio também ocupa posição relevante nos programas de governo dos candidatos à Presidência. O setor responde por quase 25% do Produto Interno Bruto do país, segundo o material analisado pela Câmara.
O consultor legislativo do Senado Luiz Rodrigues destacou a importância do crédito para a agricultura familiar e da ampliação do seguro rural. A necessidade de financiamento é especialmente relevante em um mercado de commodities, como soja e milho, marcado por ciclos de preços e por custos que podem variar ao longo do tempo.
Conflitos internacionais afetaram os mercados de fertilizantes e combustíveis. Somados a um El Niño mais intenso em 2026, esses fatores levaram produtores a recorrer à renegociação de dívidas e à recuperação judicial. De acordo com dados da Serasa Experian citados na reportagem, os pedidos de recuperação judicial no agronegócio cresceram 22% no primeiro trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Rodrigues também apontou oportunidades relacionadas à transição energética, como a expansão do etanol de milho e do combustível sustentável de aviação. Na avaliação apresentada, esses segmentos podem abrir novos negócios para produtores de diferentes portes.
Metas ambientais exigem execução
Na área ambiental, o consultor legislativo da Câmara Rafael Vargas Marques afirmou que os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, incluindo o fim do desmatamento ilegal até 2030, dependem de cumprimento efetivo, independentemente do governo eleito.
O especialista avaliou que o país possui uma legislação ambiental considerada avançada, mas enfrenta dificuldades para aplicá-la de forma consistente. Entre os obstáculos estão a distância entre discursos e ações práticas, a complexidade dos problemas ambientais e a necessidade de decisões imediatas para questões que se desenvolvem em ciclos longos.
Vargas Marques também citou a insegurança jurídica provocada pela judicialização de normas ambientais e a indefinição sobre a nova Lei do Licenciamento Ambiental, questionada no Supremo Tribunal Federal. Para ele, os recursos destinados à fiscalização e ao enfrentamento dos efeitos das mudanças climáticas deveriam ser tratados como investimentos, e não apenas como despesas.
As análises indicam que o debate das eleições de 2026 não se limita à apresentação de propostas. A implementação de metas, a definição de responsabilidades entre os entes federativos e a capacidade de manter políticas públicas ao longo do tempo serão questões decisivas para os eleitores e para os futuros governantes.
Fonte: Agência Câmara de Notícias








